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2.5.09

Um convite a tod@s: lançamento do "Narrativas Musicais" e pocket show

Annablume Editora e Livraria da Vila-Fradique 
convidam para o lançamento do livro de
 
 
 
Narrativas Musicais:
performance e experiência na música popular instrumental brasileira

 
Noite de autógrafos com apresentação musical.
Dia 05 de maio de 2009, terça-feira, das 18:30 hs às 21:30hs.
Rua Fradique Coutinho, nº 915 - Vila Madalena - São Paulo - SP .
(11) 3814.5811
 
Formato 14x21cm, 255 páginas
Acompanha CR-ROM
ISBN 978-85-7419-900-9


6.3.09

Finalmente está pronto!!!! Narrativas Musicais, o livro...

É com grande satisfação que finalmente anuncio o livro NARRATIVAS MUSICAIS. Peço desculpas aos internautas pela demora em postar novos materiais, mas a justificativa é o acúmulo de atividades nos últimos dias, principalmente no que diz respeito à finalização do livro. Agora que o livro está pronto, um lançamento oficial se anuncia. Não há ainda uma data marcada, mas em tempo será aqui postado o convite oficial. Por ora apresento, finalmente, esta que espero seja uma obra que leve prazer ao leitor e ... porque não dizer ouvinte...

O conteúdo é o seguinte:

PREFÁCIO do Prof. Dr. Alberto Ikeda

PARTE 1

Capítulo I “Música Popular Instrumental Brasileira: Personalidades e Cenário”
Personalidades Sonoras 
Aspectos do Cenário 
A Rede 

Capítulo II “Fronteiras sem Limites”
Autores e Linhas 
A Trança 
Entre Mundos 
Risco e Surpresa
Canção sem Letra 
Local Universal
Fusão à Brasileira 
Mitos no Som 
Pósludio 

Capítulo III “Contextos e Processos da Performance Musical”
Performance e Script 
Algumas Sonoridades 
Vestígios e Arestas 

Capítulo IV “Música Popular Instrumental Brasileira em São Paulo”
Circunstâncias da Produção 
Vitrine de Tensões 
“International National Music” 
Ordem e Desordem 
MPIB e a Mídia 

PARTE 2

Capítulo V “Etnografia do Fazer Musical”
Etnomusicologia e a Sociologia da Música 
Antropologia, Performance e Hermenêutica
Etnomusicologia e o “Fazer Musical”
Construção da Análise 
Procedimentos da Pesquisa de Campo 
Etnografia das Performances 
Entrevistas com Músicos e Ouvintes 
Materiais Fonográficos de Acervos 
Pesquisa Bibliográfica, Fonográfica e em Mídias 
Banco de Dados Geográfico Multimeios 

Capítulo VI “Experiências Musicais e Identidade Nacional”
Música e seus Personagens 
Da Noção de Pessoa ao Personagem Sonoro 
Da Performance ao Fazer Musical 
Experiência Musical e Identidade Nacional Imaginação Global e Mediação 

CONSIDERAÇÕES FINAIS
“A Substância Social das Montagens Musicais”

26.11.08

Música Popular Instrumental em São Paulo [2]

A partir da metodologia apresentada na postagem anterior, o trabalho de campo com mais detalhes – incluindo a visita ao local, registro da apresentação, catalogação e caderno de campo – foi realizado em 35 apresentações. Desse total, aproximadamente 60% (20) foram apresentações indicadas por músicos, conhecidos, entrevistados ou por mailing. A Internet é hoje uma importante vitrine para os grupos e artistas divulgarem seus trabalhos e apresentações, sendo inclusive um meio através do qual os músicos fazem divulgação, contatos com produtores e agentes, cotações de preços de equipamentos, conhecem locais onde podem pleitear vagas, etc. 

Podemos perceber pela Figura [2] que o trabalho de campo mantém o padrão do mapa anterior [1]. Devido à necessidade de critérios para a escolha dos locais, a pesquisa de campo se concentrou nos bairros com maior quantidade de equipamentos, nos eventos e ciclos de apresentações, e nas indicações dos próprios músicos. Pela distribuição espacial do trabalho de campo foi possível acompanhar, além dos deslocamentos espaciais de certos músicos e ouvintes, a maneira que os locais de apresentações musicais estão dispostos na cidade. 

Dos 20 locais com maior taxa de ocorrência, metade são particulares enquanto a outra metade se divide em 6 SESCs (V. Mariana, Pompéia, Paulista, Consolação, Belenzinho e Pinheiros), Centro Cultural Banco do Brasil, Instituto Cultural Itaú, Centro Cultural São Paulo e Sala São Paulo. Ocupando as colocações 18º e 19º respectivamente, estes dois últimos são os únicos estabelecimentos realmente públicos. 


Figura 2 – Distribuição espacial dos equipamentos onde foi realizado trabalho de campo no período de janeiro de 2003 a janeiro de 2004. O trabalho de campo mantém o padrão do mapa anterior, porém inclui locais de apresentações com pouca ou nenhuma divulgação. 


O trabalho de campo foi essencial para entender de que maneira a música instrumental é realizada de fato e como se constitui a “experiência musical” nos locais onde ela ocorre. Também importante para o entendimento do fenômeno são as conversas informais e entrevistas realizadas com músicos em atividade, assim como ex-músicos e aposentados. O meio urbano metropolitano surge como o “palco” no qual se dá a produção e apreciação da MPIB ao mesmo tempo em que é o espaço de disputas e conflitos. 

A cidade é o palco também da construção de musicalidades específicas dentro do gênero na medida em que foram constatadas diversas “linhas”, ou sub-categorias, indicadas pelos próprios músicos e ouvintes. Na busca por postos de trabalho os músicos são impelidos, por um lado a uma certa “especialização” em sua linha e por outro, uma versatilidade para aprender outros gêneros e estilos musicais. O ecletismo musical e a diversificação de atividades ao qual o instrumentista é impelido são estratégias de “sobrevivência” para se manter no mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que são também “ferramentas” utilizadas na ampliação do discurso musical dos próprios músicos e do gênero como um todo. 

O georeferenciamento do trabalho de campo, aliado à visão mais ampla do fenômeno, traz uma perspectiva interessante para obter um conhecimento espacial mais preciso da amostra frente ao fenômeno estudado. Mesmo que a Figura 1 não apresenta absolutamente todos os lugares onde ocorrem músicas instrumentais, ela mostra a localização das ofertas de postos de trabalho de uma maneira mais aproximada. 

Outro aspecto que nos chama atenção é a relação entre oferta e demanda de postos de trabalho para os instrumentistas. Foram catalogados ao todo 87 equipamentos urbanos, que foram locais de alguma apresentação do total de 319 conjuntos/artistas de música instrumental no período citado. Na categoria de equipamentos urbanos foram classificados teatros, casas de show, bares, clubes, praças, parques ou até mesmo a própria rua. Isso significa que, para cada estabelecimento, concorrem para se apresentar 3,66 conjuntos/artistas. Vendo dessa forma parece baixa a concorrência. Mas não é o que acontece. Na seleção para as programações musicais a disputa é bastante acirrada devido ao crivo realizado pela direção musical dos estabelecimentos.

Música Popular Instrumental em São Paulo [1]

"(...) Formalmente, as narrativas existem no tempo, e as imagens, no espaço. 

(...) Quando lemos imagens -- de qualquer tipo, sejam pintadas, esculpidas, fotografadas, edificadas ou encenadas --, atribuímos a elas o caráter temporal da narrativa. 

(...) Nenhuma narrativa suscitada por uma imagem é definitiva ou exclusiva, e as medidas para aferir a sua justeza variam segundo as mesmas circunstâncias que dão origem à própria narrativa"
(Mangel, Alberto. Reading Pictures: a history of love and hate).

Como todas as práticas culturais, além da dimensão ligada ao contexto, a música possui a dimensão relacionada com o espaço. Quando se pensa a relação entre as práticas musicais e a paisagem urbana é preciso tomar os agentes como os responsáveis pela dinâmica da cidade, é preciso partir dos “atores sociais” como os agentes dos arranjos e padrões (cf. Magnani, 2002). Nesse sentido, observar a música na paisagem urbana significa descobrir onde se encontram e quais são os equipamentos urbanos utilizados, quais são os bairros de maior ocorrência, quais gêneros são tocados e em que tipo de equipamentos, quais as regularidades e recorrências entre os mesmos e diferentes tipos de equipamentos. 

Ao nos determos nas lógicas seguidas pelos agentes (principalmente donos de estabelecimentos, produtores musicais, músicos e freqüentadores), percebem-se certas regularidades na maneira como utilizam a cidade. Outro tipo de regularidade refere-se à distribuição temporal dos estilos e gêneros musicais nos estabelecimentos. Essas programações acabam criando a possibilidade de construção dos deslocamentos tanto de músicos quanto de público, através de uma seqüência temporal e espacial de opções na qual se observam regras de compatibilidade.

A utilização de Sistemas de Informações Geográficas (SIG) suscita novas formas de olhar para o objeto de estudo a partir da dimensão espacial, inserindo diferentes variáveis e, conseqüentemente, extraindo informações até então implícitas no conjunto dos dados. O armazenamento de dados em estrutura de Banco de Dados Geográfico permite a realização de consultas por atributos, consultas espaciais, agrupamento de dados, bem como análises espaciais.

O armazenamento em banco de dados e a análise espacial dos dados obtidos durante o trabalho de campo realizado em 2003 consideraram 777 registros de apresentações de música instrumental em São Paulo. As casas de shows consideradas foram plotadas no mapa utilizando a ferramenta de Geocodificação de Endereços, disponível no Terra View , tendo como dado-fonte a malha de ruas da cidade de São Paulo . A associação dos eventos musicais aos pontos geocodificados e a análise espacial dos dados no software “TerraView” forneceu às análises, interessantes nuances do comportamento espacial da MPIB na cidade de São Paulo. 

O trabalho utilizou análise espacial de padrões pontuais (Bailey, 1995; Anselin, 1995; Câmara 2000), onde os pontos geocodificados correspondem a estabelecimentos onde ocorreu pelo menos uma apresentação musical. Este tipo de análise permite extrair matematicamente padrões espaciais nos pontos distribuídos sobre o mapa. Tais padrões podem (ou não) indicar a influência do espaço no fenômeno estudado. Esta influência pode ser expressa através da formação de clusters, ou seja, regiões onde há maior concentração de equipamentos urbanos e eventos. Padrões de distribuição aleatórios ou regulares também podem ser encontrados.



Figura 1 – Distribuição espacial dos equipamentos urbanos onde se executa música instrumental na cidade de São Paulo. Os dados foram coletados no período de janeiro de 2003 a janeiro de 2004. Foram catalogados ao todo 87 equipamentos urbanos que foram locais de alguma apresentação do total de 319 conjuntos/artistas de música instrumental no período citado.


Quando observamos os locais de ocorrência da música instrumental constatamos padrões de distribuição peculiares. Em algumas regiões constatam-se clusters de equipamentos, como é o caso da Vila Madalena, em outras regiões observamos equipamentos relativamente “isolados”, como o caso do “All of Jazz” (Itaim) ou do “Novotel Center Norte” (Carandiru). Em outras regiões não há uma contigüidade espacial, ou seja, os equipamentos urbanos que oferecem música instrumental encontram-se aleatoriamente espalhados pela cidade e o padrão de distribuição espacial está relacionado mais com a utilização e menos com sua localização espacial. 

Tal abordagem proporciona uma visão mais ampla que possibilita buscar ordenamentos no uso da cidade e dos equipamentos. Como mostra a Figura IV.1, os estabelecimentos se encontram em locais diferentes, no entanto o que os caracteriza é o exercício de determinada atividade: a MPIB. Os dados referentes à Figura IV.1 foram coletados na imprensa, no entanto, tal atividade é oferecida e divulgada à população de uma maneira bastante informal, ou seja, as apresentações de música instrumental são realizadas em grande parte sem uma divulgação mais ampla na imprensa.

A divulgação relativamente deficiente das apresentações acarreta certos problemas para uma pesquisa que pretende “mapear” a MPIB em São Paulo. É por isso que esse mapa apresenta distorções com relação à realidade. Isso se deve à fonte de obtenção de dados e às limitações da pesquisa. Primeiro, porque os dados foram coletados a partir de informes, sites, revistas e jornais que por um lado são fontes legítimas, pois é através delas que o público acessa a informação, mas por outro estão sempre sujeitas a equívocos, mudanças e até mesmo erros. Além dos erros, muitos grupos não fazem divulgação num jornal, e muitas vezes não fazem nem folhetos ou cartazes. E segundo, porque a pesquisa foi realizada sem uma equipe de apoio que pudesse checar as informações. Devido a isso, foram escolhidos para o trabalho de campo, determinados estabelecimentos a partir de critérios apontados pelos próprios músicos ou que estivessem inseridos em ciclos de apresentações que tematizavam a música instrumental.

25.11.08

Metasonoridade

A Música Popular Instrumental Brasileira apresenta uma versão de Brasil que abarca diversos ritmos e estilos. O que é estrangeiro também é “legitimamente” brasileiro, na mais autêntica tradição antropofágica. A MPIB expõe diferentes formas de articular questões técnicas provenientes do jazz e de outros gêneros, com os ritmos e melodias brasileiras, ibéricas, africanas e indígenas. Esta, pode-se dizer, é uma das especificidades da MPIB.

O gênero pode ser pensado como uma corda trançada formada por diversas linhas. Os elementos que caracterizam tais linhas são aspectos musicais que agenciam o “diálogo” entre sonoridades diferentes. Pode-se pensar numa “universalização das linguagens” e numa ruptura com rótulos mercadológicos. Dessa maneira a MPIB representa sonoridades diferentes e incorpora elementos relegados pela própria Música Popular Brasileira.

Nesta perspectiva, o tocar fornece um comentário sobre o cotidiano. Uma apresentação musical é um acontecimento humano no qual se cruzam os limites entre o estabelecido e o não-estabelecido. O repertório da MPIB pode ser entendido como “narrativas musicais” que revelam dramas estéticos no interior dos quais se configuram as relações entre experiência e expressão. Narrativas que revelam através da linguagem musical um comentário reflexivo sobre a paisagem sonora brasileira, uma meta-sonoridade.

Prefácio



O livro que Giovanni Cirino nos apresenta trata de um tema bem inédito, a música popular instrumental brasileira na cidade de S. Paulo. O interesse, porém, não é apenas musical e o enfoque é também sociológico-antropológico, o que amplia o seu ineditismo e importância. O trabalho investigativo se constituiu, certamente, em um desafio para o pesquisador, diante da grande variedade de experiências e tendências musicais e do gigantismo da capital paulista. Afinal S. Paulo apresenta música “dos quatro cantos do mundo” pode-se dizer, seja coreana, japonesa, italiana, indiana, árabe, judaica, cubana, boliviana, angolana, chilena e muito mais o que se possa imaginar. Como dar conta de tanta variedade, nas dimensões e complexidade urbana da capital paulista?

Feito o recorte temático e temporal, voltando-se para a música popular instrumental considerada brasileira, o autor fez pesquisa de campo, com presença nos locais de apresentações, pelos inúmeros bairros/regiões, realizou entrevistas com músicos, enquetes com espectadores, recolheu notícias de jornais e revistas, reuniu CDs e informações de gravadoras e instituições artístico-culturais, acompanhou programação de televisões e rádios, realizou gravações próprias, analisou arranjos, acompanhou seminários especializados, consultou sítios via internet (webgrafia) e reuniu ampla e variada bibliografia, para ter domínio sobre o objeto da pesquisa e das teorias aplicáveis ao tema. O trabalho tem base em uma ampla etnografia da música na capital paulista, uma etnomusicografia que é identificada como “etnografia das performances musicais”, ocupando-se não só dos “sons registrados”, mas, ainda, das suas performances, para avaliar os “materiais” e “as condições de trabalho dos músicos”, conforme explica o autor. 

Revelaram-se, então, facetas pouco conhecidas da metrópole, que é sempre mais lembrada pelos seus congestionamentos diários de trânsito, e pelos negócios, trabalho, gastronomia, indústria, rede bancária, enchentes e outros problemas de ordem social. O trabalho de campo com registro detalhado de 35 apresentações se fez durante um ano, entre janeiro de 2003 a janeiro de 2004, mas no total foram levados em consideração 87 espaços de apresentações, 319 conjuntos/artistas musicais e 777 registros de apresentações, o que é algo notável. 

Para processar tantos dados, espalhados pelo espaço urbano, utilizou-se de um “banco de Dados Geográfico” (“geoprocessamento”), que permitiu realizar consultas de várias ordens, por atributos, por espacialidade e outras, na busca das suas interpretações e conclusões. Mas, além dos aspectos etnográficos, atuais, a pesquisa envolveu grande acúmulo de conhecimentos no que se refere à música popular no Brasil em geral, inclusive do ponto de vista histórico, recuperando referências importantes sobre o assunto desde o século XIX, sobre o choro, as bandas de “coreto” e outras formas de música instrumental. Trata-se, sim, de trabalho de grande erudição.

Tudo se fez possível pois Giovanni é um exemplo pouco comum de alguém que se mostra competente em duas áreas bem distintas, como cientista social e como músico. De modo mais específico, trata-se de um antropólogo e etnomusicólogo que também é guitarrista-violonista, e com vivência no objeto da própria investigação, a música popular. Do ponto de vista da música, trata-se de alguém “de dentro”, como se diz. De fato, temos poucos exemplos de investigadores que podem, de forma competente, utilizar instrumental analítico-reflexivo dessas especialidades centrado em um mesmo objeto de pesquisa. 

Assim, Cirino consegue realizar análise de um arranjo musical, e, ao mesmo tempo, transpor o conceito de harmonia e dissonância, tão usuais nas análises musicais, para as relações sociais no Brasil, da mesma forma como consegue “ver”, baseado em Vitor Turner, na música popular instrumental brasileira a sua colocação em um espaço “às margens dos processos ritualizantes de construção da identidade nacional”, o que é algo típico de preocupação do campo da antropologia. Giovanni percebe, ainda, na música instrumental as “fissuras”, as “tensões” e as “contradições” na sociedade brasileira, como se poderá compreender no decorrer dos capítulos do livro. 

De fato, essa aproximação entre música e antropologia, sem dúvida, traz enormes benefícios para as pesquisas, pois na maioria das vezes as investigações que envolvem enfoques distintos, sobretudo quando miram as artes, deixam débitos de análises em um ou outro deles. Não é o caso do presente trabalho, que traz real contribuição para os estudos da música, pelo seu enfoque, e, também, para a antropologia, pela temática pouco abordada nessa especialidade, diante do conhecido temor dos que “não conhecem música”, embora a música e suas atividades possam trazer muitas, muitas, revelações sobre os grupos humanos. 

Ressalte-se, ainda, no trabalho, o cuidado na questão metodológica e o domínio dos aspectos teóricos, incluindo profusão de autores, sobretudo da antropologia, da sociologia, dos estudos culturais, da etnomusicologia, e das teorias da música. Cirino dialoga com autores bem reconhecidos, como H. K. Bhabha, N. Garcia-Canclini, G. Geertz, V. Turner, J. Derrida, M. Sahlins, M. Mauss, T. Adorno, W. Benjamin, R. DaMatta, J. Blacking e tantos mais, incluindo alguns mais voltados para a música, como E. W. Said, D. Sebesky, J. Aebersold e outros. 

O autor expõe que a investigação está pautada em reflexões “a partir das considerações da antropologia da performance, hermenêutica e etnomusicologia em contexto urbano”. Nesse aspecto, como bom antropólogo, Giovanni levou em consideração a “visão de mundo” nativa, ou seja, a dos próprios músicos, entre os quais, para citar apenas alguns mais conhecidos: Airto Moreira, Antônio Arruda, Carlos Poyares, Magno Pereira, Hamilton de Holanda, Hermeto Pascoal, Nelson Ayres e outros tantos. 

O livro se tornará referencial, certamente, pelo tema pouco estudado, e mais, ainda, pelos aspectos metodológicos nele aplicados. Embora alguns aspectos das conclusões ainda possam merecer outras interpretações e até mesmo discordâncias interpretativas, o que é, inclusive, saudável, na medida em que a aproximação entre música e antropologia ainda é pouco aplicada entre nós, sendo o objeto dessa investigação também pouco estudado, trata-se de uma contribuição importantíssima e corajosa para as investigações do campo da música. 

A leitura flui muito bem, intercalando momentos mais densos, e até difíceis, nas partes voltadas para questões teóricas e suas reflexões, e outras partes de grande “leveza”, como crônicas reveladas pelos entrevistados músicos, que trazem suas experiências e memórias do fazer musical. 

Temos, sim, muito a aprender sobre a música e a sociedade brasileira neste livro. 

Alberto T. Ikeda
Professor de Etnomusicologia e Cultura Popular
Instituto de Artes – Universidade Estadual Paulista (UNESP)
S. Paulo

Projeto Narrativas Musicais

O projeto aborda a música instrumental e sua atividade na cidade de São Paulo. O trabalho explora uma das muitas paisagens sonoras da sociedade – paulistana e brasileira – através da “audição” da música instrumental. 

A Música Popular Instrumental é abordada tanto a partir de sua produção fonográfica e ao vivo, quanto dos aspectos musicais inerentes às obras. O trabalho identifica elementos que constituem as experiências que surgem no fazer musical e investiga como as questões relativas à construção da identidade nacional se articulam na Música Popular Instrumental. 

Para dar conta da proposta a obra está dividida em duas partes: a primeira contendo os dados da pesquisa de campo, entrevistas e materiais da mídia, e a segunda parte contendo as discussões sobre a etnografia do fazer musical, a experiência musical e seus significados no mundo contemporâneo.


* * *

The Musical Narratives Project
This work approaches the Brazilian instrumental popular music (BIPM) and its activity in Sao Paulo city. The research intents to identify the BIPM content as a society mediation, as well as clarify semantic and content questions with respect to the term. In other words, the work tries to bring the reader to one among the several society soundscape – from Sao Paulo and Brazil – through the listening of the instrumental music. 

We approach the instrumental music from two points of view: firstly its production, presenting some of the production circumstances (phonographic and alive), and on the other hand, by the observation of the work’s internal logic from music aspects such as scales, motifs, rhythms and chords patterns, improvisations, forms, etc. This double approach can be justified because the BIPM disarranges semantic contexts by putting the musical elements in amazing relationships. This effort is the central point of this work. 

The goal of this ethnography is to investigate, by one hand, how the questions relative to the construction of the national identity articulate themselves on the BIPM through different elements arranged to give expression to the tensions and contradictions of the Brazilian society. On the other hand, to identify some elements on the constitution of the experiences which appear on the music-making. 

To take account of this problematic we divide this dissertation in two parts: the first one containing empirical data from field research, interviews and collected material from the media, and the second one containing the theoretical and methodological discussions about the ethnography of the music-making, and the problematic of the musical experience and its meanings on the contemporary world.